Crônica. O abominável preconceito

POR LEOPOLDO BARENTIN

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Quem conhece a história do município de Tijucas com certeza já percebeu que o preconceito é uma realidade que vem de longe, desde o início da povoação do pacato vilarejo pelos açorianos trazidos para Santa Catarina em meados do século XVIII. Habituados à pesca e à agricultura, os imigrantes viveram em harmonia até a chegada dos abastados portugueses nas primeiras décadas do século XIX, que trouxeram riquezas para comprar escravos e terras, edificar casarões e construir os lendários veleiros que tornariam famosa a Marinha Mercante Tijuquense.

Do final do século XIX até a primeira metade do século XX cerca de 120 veleiros faziam o transporte de mercadorias entre o litoral norte catarinense e o sudeste do Brasil. Os tripulantes em sua maioria moravam nos arrebaldes da Praça, mais antigo bairro da cidade. Os patrões precisavam dos seus serviços, mas não queriam intimidades. Eram excluídos pela sociedade.

A maior prova do talvez inconsciente preconceito está na estrutura urbana dos 157 anos de Emancipação Política do Município: antes da chegada dos veículos automotores e das rodovias o transporte de bens e pessoas era feito pelos rios e oceanos. O rio Tijucas, portanto, era valorizado como são hoje os imóveis das praias turísticas. Gente humilde, pobres e negros cativos, depois libertos, não tinham cacife para morar na beira rio. Essas áreas eram privilégio para os senhores de escravos, lavouras, engenhos e embarcações de cabotagem. Muitos faziam fortunas pelo infortúnio de outrem, principalmente lavradores.

Os poderosos da beira rio também eram donos de casas comerciais e vendiam fiado para os agricultores a preço de varejo até a chegada da safra. Quando esses pequenos produtores rurais colhiam a produção eram praticamente forçados a vender tudo a preço de atacado para quitarem suas dívidas. Muitas vezes eram arrendatários desses próprios comerciantes, que já ficavam com uma parte da safra por conta do aluguel das terras. Eram famílias numerosas, quanto mais mão de obra maior a produção, porém sustentar muitos filhos absorvia os ganhos e por fim as dívidas sempre aumentavam.

Não era raro o caso de gente que era dona do próprio chão de entregar a propriedade para saldar as dívidas transformadas em bola de neve. Daí os ricos se tornavam cada vez mais poderosos e os pobres cada vez mais miseráveis. A população sabia dessa realidade, mas ninguém se atrevia a levantar a voz contra essa exploração inaceitável.

Andando pela beira rio urbana de Tijucas ainda encontramos alguns casarões das famílias que enriqueceram as custas do trabalho escravo e do suor alheio, no entanto não existe o menor vestígio de moradias das pessoas menos favorecidas. A classe dominante não queria saber de pobre por perto. Os escravos, depois negros libertos, eram assentados em menos de uma dezena de servidões perpendiculares ao rio, onde aos poucos se estabeleciam os antigos agricultores que perdiam suas terras ou fracassavam nas lavouras de arrendamento. Assim como os negros, não eram bem vindos aos festejos populares e nem podiam sonhar em se divertir nos clubes e sociedades tradicionais da época.

O tempo passou, mas muito pouco mudou. O valor das pessoas não é medido pelo seu caráter, honestidade ou desempenho profissional. O que vale é ter bens, status social e acesso ao poder. O País nos mostra isso em situações como a Operação Lava Jato, através da qual a Justiça Federal manda corruptos para cadeia de manhã e o Supremo Tribuna Federal (STF), determina que sejam soltos à tarde. São indivíduos envolvidos até o pescoço num mar de lama, no entanto tem a ousadia de se fazerem de vítimas. A nação é obrigada a assistir imagens como a do ex-ministro e deputado federal José Dirceu, dançando numa luxuosa festa de aniversário da esposa com uma tornozeleira escondida sob a calça, como se nada tivesse acontecido.

A discriminação está por todos os lados e o racismo acompanha essa realidade. A identidade negra no Brasil é muito importante. É resultado da resistência secular de um movimento num sentido amplo. No Brasil é uma questão fundamental enquanto um movimento coletivo. E quando fala em povo, temos outros problemas. Porque temos vários povos misturados num só. Nossa identidade é fragmentada em muitas questões. Porque o negro no Brasil não sabe de onde veio. Não tinha registro. Veio da África, mas a África é um continente. Os únicos registros são as certidões de nascimento e o sobrenome é o do dono dos escravos. Com Cruz e Sousa também foi assim.

No País a intolerância com os menos afortunados é vista no nariz empinado dos condutores de veículos importados ao passarem por um ponto de ônibus, onde estão pessoas que em sua maioria não possuem automóveis e precisam do transporte público; nos feirantes, camelôs e ambulantes que trabalham nessas atividades por não terem boas oportunidades na vida; nas pessoas que utilizam os serviços dos postos de saúde e as escolas e creches públicas ou os quartos de hospital bancados pelo SUS. Uma pessoa de bem mal vestida é vista com o olhar de desconfiança ao entrar num restaurante um pouco mais caro, choperia, lanchonete, petiscaria ou numa concessionária de automóveis. E coitado do cidadão trajando roupas mais simples que entrar numa loja de grife, joalheria ou hotel chique. É bem provável que os atendentes ou proprietários chamem a segurança ou até mesmo a polícia. Até pelo credo religioso pessoas são injustamente discriminadas. E quando falamos “cidadão” estamos sempre nos referindo não só aos pobres, mas também aos negros e deficientes.

A sociedade precisa rever urgentemente valores e conceitos. Uma pessoa não pode ser tratada como se fosse um marginal pelas suas roupas, cor da pele, deficiência, casa onde mora ou pelo veículo que dirige. Somos todos iguais perante Deus e quando morrermos necessitaremos apenas de um buraco com um metro de largura, dois de comprimento e um metro de profundidade. Lembre bem dos empresários que comandavam a sua cidade há 30 ou 40 anos atrás. Recorde o patrimônio que tinham, como tratavam seus empregados e a sua conduta perante os menos favorecidos. Onde estão eles? De que adiantou a fortuna que tinham? Valeu a pena serem diferentes com muitos e indiferentes aos problemas da maioria?

É, a vida da muitas voltas!…Warren Buffett, um dos três homens mais ricos do mundo, dono de uma fortuna superior a 75 bilhões de dólares, mora numa casa de dois andares, de madeira. Franklin Delano Roosevelt, eleito quatro vezes presidente dos Estados Unidos, comandou a maior potência mundial em uma cadeira de rodas. Amador Aguiar, fundador do Bradesco, transitava pelas ruas de São Paulo dirigindo um fusca. O ex-presidente americano Barack Obama, o astro do basquete Michael Jordan, Pelé, o Rei do Futebol, e Neymar, o jogador mais caro da história do futebol, são de origem africana. Será que essa gente que se acha melhor que todo mundo teria preconceito em conviver com eles?

 

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